Num percurso de ida e volta devem entrar em três buracos dispostos em linha recta, saindo vencedora a criança que chegar primeiro ao buraco inicial. (Edição Revista e Aumentada)
Pernoitas em Mim
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'
35
Ontem senti dor,
não conhecia o seu rosto sanguíneo
lábios duros de metal,
nítida ausência de horizontes.
A dor não tem porvir
é um focinho de cavalo que bloqueia
os poderosos jarretes,
mas ontem fui ao fundo,
os meus lábios fecharam-se
e o pavor entrou-me no peito
com um silvo profundo
e as fontes deixaram de florir,
a sua água doce
era apenas um mar de dor
em que eu naufragava dormindo,
mas mesmo então temia
os anjos eternos.
Mas se são tão doces e constantes
porque me aterroriza a imobilidade?
Alda Merini
A Terra Santa
Livros Cotovia, 2004
Ontem senti dor,
não conhecia o seu rosto sanguíneo
lábios duros de metal,
nítida ausência de horizontes.
A dor não tem porvir
é um focinho de cavalo que bloqueia
os poderosos jarretes,
mas ontem fui ao fundo,
os meus lábios fecharam-se
e o pavor entrou-me no peito
com um silvo profundo
e as fontes deixaram de florir,
a sua água doce
era apenas um mar de dor
em que eu naufragava dormindo,
mas mesmo então temia
os anjos eternos.
Mas se são tão doces e constantes
porque me aterroriza a imobilidade?
Alda Merini
A Terra Santa
Livros Cotovia, 2004
De Um e de Dois, de Todos
Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido
E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila
Pois onde começa um corpo ganho eu forma e consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Trad. António Ramos Rosa
sabíamos que na alba seguinte não nos restaria
mais nada, nem a mulher bebendo ao nosso lado o sono
nem a memória de que fomos homens alguma vez
Yorgos Seferis
Queres que te conte sobre este ardor
arroxeado, a luz breve dos jacarandás
enquanto se desprende a manhã
ao ritmo estranho dessas
canções amputadas, melodia ácida
onde pousa a voz, sem uma frase certa
que possa martelar? Carícias assim,
um afecto entre sombras. Esquecida
a carne, esquecido o seu perfume
e os cinco meses anteriores.
No estio das primeiras horas
só o pus das imagens. A rotação pobre
de que sofre o silêncio, madrugadas
em seu rendado escuro, suas sílabas de
fuligem e bolor, conchas, pedacinhos
de ossos e outros fósseis líricos.
As nossas alusões amputadas concentrados,
slogans de um desespero que
já nem será nosso,
mas onde mergulhámos as mãos
cansadas e sujas de virar
fantasias de revista, este mundinho
de vazios berrantes, derrubado
sobre os nossos joelhos.
Soa disperso um eco gélido, o balido
de um sino, animal que vem sangrando
há séculos. Vagueio por aí
e sinto o peso de mil vozes sobre
a minha. Como olham
longamente, como alargam um gesto
solto das lendas, os vultos em fundo.
Assobios levados pelas brisas a esse limiar
onde o real se apeia nos eléctricos
que passam entre sonhos. A cabeça
encostada à janela, adormecida à margem
das encantações. Juntos, puxam
devagarinho os fios de sol, luz
que apalpou os frutos todos, um gosto
a abismo entre aquelas mãos intensas.
Persigo a pequena aranha de prata
que levavas presa na força escura
dos cabelos, a raiz espessa de uma nódoa
de batôn que me engole, o vestidinho curto,
cheio de brilhos – cinza de estrelas, dizias,
mordendo um sorriso. Bebeste-me a água
das flores, e a tua boca ainda
mexe mas não se percebe nada. Já não
serias tu. Restos de ti que levei a esse mito
de água salgada, mulher, cântico sem fim.
Aonde me levam agora
esses atalhos que aprendi contigo?
Ficaram algumas noites minhas
ainda em tua casa, leituras que deixei
a meio, mesmo a posição doce
desse corpo, esculpido quando dormias
e eu não.
Isso tudo, agora um poema atravessado
dos sinais que mais cedo nos esquecem.
Não me digas que não é triste.
Diogo Vaz Pinto,
in O Melhor Amigo
Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, orgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue:
matéria ou linguagem ?
Nuno Ramos, in Ó
Ed. Iluminuras
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