Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira


There are some things one remembers even though they may never have happened.

                                                                                                                                              Harold Pinter



Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto

06:01

Felices los normales


a Antonia Eiriz
Felices los normales, esos seres extraños.
Los que no tuvieron una madre loca, un padre borracho,
un hijo delincuente,
Una casa en ninguna parte, una enfermedad desconocida,
Los que no han sido calcinados por un amor devorante,
Los que vivieron los diecisiete rostros de la sonrisa
y un poco más,
Los llenos de zapatos, los arcángeles con sombreros,
Los satifechos, los gordos, los lindos,
Los rintintin y sus secuaces, los que cómo no, por aquí,
Los que ganan, los que son queridos hasta la empuñadura,
Los flautistas acompañados por ratones,
Los vendedores y sus compradores,
Los caballeros ligeiramente sobrehumanos,
Los hombres vestidos de truenos y las mujeres
de relámpagos,
Los delicados, los sensatos, los finos,
Los amables, los dulces, los comestibles y bebestibles.
Felices las aves, el estiércol, las piedras.
Pero que den paso a los que hacen los mundos
y los sueños,
Las ilusiones, las sinfonías, las palabras que nos desbaratan
Y nos construyen, los más locos que sus madres, los más
borrachos
Que sus padres y más delicuentes que sus hijos
Y más devorados por amores calcinantes.
Que les dejen su sitio en el infierno, y basta.
Roberto Fernández Retamar
 
 
 



12.

E no entanto, embora cada um aspire a encontrar de si saída
como de prisão, que o odeia e detém lá fundo,
há um grande milagre no mundo:
sinto: toda a vida é vivida.

Quem a vive então? São as coisas que no seu estar
como melodia por tocar
ao entardecer como uma harpa hão-de ficar?
São os ventos que das águas sopram,
são os ramos que sinais trocam,
são as flores que os perfumes estão a tecer,
são as longas áleas a envelhecer?
São os animais quentes, que andam,
são os pássaros que estranhamente se elevam?

Quem vive então? Vives tu, meu Deus, a vida como libertação?

Rainer Maria Rilke