sáb.24 dez 1927
qua.25 mar 2011


NAS FOLHAS DE CHÁ

Estamos de passagem mas em caso algum

esqueceremos o orvalho. Os nossos poros

ossificaram o sangue, é o que a terra diz:

– o alcatrão não é o meu vestido de luto,

mas a pele irrespirável da minha carne.

Agora quem vai querê-la por noiva?

As grinaldas estão cheias de poeira e a

marcha nupcial desafina as estrelas.

O sol feito de gasolina na nossa pele

de verão apodrece depressa nas rugas.

Ainda ris por entre as frestas negras

e deixas entrever outro destino nas folhas

de chá. Mesmo assim o teu cadáver

é belo entre as flores do campo que resta

e o fumo do comboio que te cinza.

O orvalho é uma palavra dócil. Às primeiras

horas quando os despojos se deixam invisíveis

ainda me extasias como a uma princesa a florar

a erecção inicial antes da radiografia pulmonar.

Não choramos por nós quando te morremos?

Rosa Alice Branco



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MEMÓRIA DE JEAN COCTEAU




O amor está tão perto de ser ódio.


Não dispenso a cratera dos boémios,


onde se encontram místicos e génios


unidos ao distúrbio.






O ódio está tão perto do amor.


Não dispenso a cratera d'homens santos,


onde se encontram bons boémios bentos


bem unidos à dor.






Os extremos não se tocam: fundem-


-se até se tornarem num só traço,


muito cingido, em truculento abraço


d'infinita vertigem.






Dificuldade de ser: não mentir,


não escrever mais poemas, não falar;


apenas, ao de leve, expirar


e morrer a sorrir.






António Barahona, O Som do Sôpro,
Lisboa: Poesia Incompleta, 2011





João Paulo Esteves da Silva + Paulo Curado

e Sábado pelas 23h

25 e 26 Março

Bar A Barraca

 



Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira

(Obrigada à Inês, pelo vídeo)
(...Par délicatesse


J’ai perdu ma vie.


Rimbaud)
Mayakovsky

1


My heart's aflutter!
I am standing in the bath tub
crying. Mother, mother
who am I? If he
will just come back once
and kiss me on the face
his coarse hair brush
my temple, it's throbbing!


then I can put on my clothes
I guess, and walk the streets.



2


I love you. I love you,
but I'm turning to my verses
and my heart is closing
like a fist.


Words! be
sick as I am sick, swoon,
roll back your eyes, a pool,


and I'll stare down
at my wounded beauty
which at best is only a talent
for poetry.


Cannot please, cannot charm or win
what a poet!
and the clear water is thick


with bloody blows on its head.
I embraced a cloud,
but when I soared
it rained.




3


That's funny! there's blood on my chest
oh yes, I've been carrying bricks
what a funny place to rupture!
and now it is raining on the ailanthus
as I step out onto the window ledge
the tracks below me are smoky and
glistening with a passion for running
I leap into the leaves, green like the sea



4


Now I am quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.


The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just grey.


It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.




FRANK O'HARA

Meditations in an Emergency