BROTHERS ON WHEELS

Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.


 
HELDER MOURA PEREIRA

Poemas com cinema [de Esta passagem],
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010


"Uma estrela na noite"

para o Changuito


Senhores meus,
todos os nossos ouvidos vão a dar lá dentro em uma forma que é
o coração.

                                                                                                                                      Pde António Vieira


11.

Mas tudo o que imaginei se realizou noutras imagens.
E resistiu ao roubo,
à pilhagem diária,
ao assalto à mão armada de silêncio,
na interminável procura das cores ao longo das margens dos rios.

António Ferra


Mas quem pode livrar-se por ventura

Dos laços que Amor arma brandamente

Entre as rosas e a neve humana pura,

O ouro e o alabastro transparente?

Quem de uma peregrina formosura,

De um vulto de Medusa propriamente,

Que o coração converte, que tem preso,

Em pedra não, mas em desejo aceso?

Luis de Camões







(Espelho)

A pessoa que eles vêem
às vezes imagino-a

atrás de dois olhos,

piscando, uma cara
prateada  no espelho.

John Mateer


XIX. Recorda-te de pessoas perto de quem tenhas estado, sem que tivessem, no entanto, partilhado uma hora. Por exemplo, parentes que se reencontram junto ao leito de morte de um ente verdadeiramente querido. Cada um vive esse momento mergulhado nas recordações que tem dele. As suas palavras cruzam-se, sem que saibam umas das outras. As suas mãos perdem-se na primeira confusão. – Até que a dor atrás deles alastra. Sentam-se, afundam a testa e calam-se. Sobre eles, um rumor como o de uma floresta. E estão próximos uns dos outros, como jamais.


Rainer Maria Rilke
Averno, 2011