PPMM


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

E suportar é o tempo mais comprido.


Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Sophia de Mello Breyner

agora a sério


Roger et Angelica
Odilon Redon
1910

Happystologie III


V.


Agosto. Este papel começou há meses, nós há anos e
o meu coração tem esta verdade.
HOJE É NISSO QUE PENSO.

Volto a esta "carta acrescentada" para to dizer.



VI.

37graus... e o meu amor por ti de mão dada.
Esta casa toda com o perímetro dos teus pés nus no chão.
Fico feliz.

Alguma calma. Acordamos e quero crer que ainda haverá algumas manhãs assim.
Perco-me no que te quero dizer.
Sei que espero.

Que se respiramos alinhadamente, isso é um ritmo nosso.
Que se cabemos na esperança um do outro, isso é um ritmo nosso.

Hoje.

E passa já tanto tempo e ainda tremo antes de te ver, saio e volto e hesito e revolto e estremeço antes de te ver...tremem as estações, o sangue corre-me ao contrário, antes de te ver... isso é tão bom.

Sei que sou tua. Sinto isso. Se és meu, se "estás" meu? Penso nisso, sim, no tempo e na verdade disso, momentos há que sim...tens estado muito presente. Outras vezes não. Sei-te assim. Também não faz mal.
Crescemos juntos.
E perguntas-me como acho que me vês...e vem o medo de te cansar

- não se deve importunar os deuses.
(e saio sempre como se te fosse encontrar).

Uma 5ª feira destas enche-se-me mais o coração - disponibilizas-me o teu amor para levar, se acaso vir o meu pai - os olhos cheios de um mar inteiro.
Choro muito, aflijo-te. Tenho espaço no teu peito para isto? Sei que sim.
Convocas milhares de coisas, mundos passados, a nossa história toda...os dias tristes em que queria os teus braços para não ficar sozinha a acreditar que esta casa tem 14 assoalhadas, que não estou mesmo sozinha, com o coração numa caixa...a tremer com as tuas iniciais.

Por isso sinto os teus braços.


VII.

Ouço-te com toda a atenção.
Nos dias em que não te vejo, acredito mais em Deus.



VIII.

Na tua mão.
Os nossos beijos agora são assim... o centro da Terra.
Com toda a História.


IX.

Sabes-me tão bem.


X.
QUERO IR DAQUI CONTIGO.


(fim Out2009)

11

Happystologie I / II



I. Ressonância Magnífica

Gosto de ti historicamente. Através das décadas. Como de um território, queria a ocupação.

Apetece-me procurar-te. Já lá vai tempo. O meu tempo é teu. Apetece-me procurar-te as coisas que não encontras. Cozinhar-te, cozinhar para ti. Ler livros para depois me explicares. Viajar contigo, jantar contigo, estar muito longe contigo. Apetece-me que percebas que quero quase nada na vida como te quero a ti.
Que te quero a ti na vida. Que esta cama é tua. Que o meu tempo é teu.
Que este olhar, quando longe, está em 2010 ou 2037, contigo.

Na minha cabeça este papel seria prodigioso. Logo no início, falaria do primário da paixão, da cor primeira, do soco sem ar, que é o teu nome a instalar-se no meu coração.
Neste papel, dir-te-ia tudo o que seria preciso para estares ao meu lado.
Neste papel, falaria desta coisa sísmica que sinto.
Neste papel, explicava-te que há uma camada subdérmica da minha dimensão toda, com o teu nome, com o teu fazer-parte...que se torna ensurdecedora nos dias e nas noites em que não estás.

As tuas mãos.

Há uma tempestade furiosa por debaixo do meu querer, é a distância, os hiatos em que fico a gostar, silenciosa, a gostar só, e a acreditar que um dia, sou eu a dobrar os meus braços à volta do teu pescoço enquanto fumas e trabalhas sossegado, em estertor de pantufas e solidão e eu assisto e gosto mais.

Neste papel, dir-te-ia, que este tempo todo nada tem de obsessão.
É tão distante e diferente disso.
Estive a existir com o propósito de ti. Estive a ser coisas para te dizer, para te mostrar, para te ir amando, para te poder dar algum brilho que tivesse...
Estás aqui por dentro. Eu com o propósito de ti.
Penso nisto diariamente. E no medo de não sentir mais.(E em ti...)

Sigo nestas direcções todas confusamente...nos dias que és ocupação, nos dias que és desejo, nos dias que não me és, nos dias só dias, nos dias atravessada por ti , nos dias sós, nos dias só dias.
Nos dias todos que começam e acabam a amar-te, todo tu, sem duração.

(...)

Mar 09
 
Depois algumas coisas más, o medo de novo, os sustos, os lados frios da cama, as noites brancas, o pescoço torto da insónia, os versos todos que cabem num história assim, tanta coisa a mais, línguas a mais, roupa por passar, panos na corda, coisas ao vento... o quotidiano às vezes inerte podia pesar...sei algumas coisas de latim, tenho almoços de família, cartas de referência, dobro as meias...falo um pouco mais de três línguas, falo demais, sei capitais e alguns nomes de plantas... e tudo isto pode ser a mais.


Podia esquecer isto. Esqueço tudo. E amo-te.


Queria dizê-lo.




II.




Tu todo.


III.


Volto aqui. Preciso de te dizer tudo. É difícil estar longe. Não é quase possível.
Chicotes pelo corpo, a latejar a pele, por dentro, por fora - e se falamos ao telefone, ficam-me a dardejar bandeiras em alvoroço pelo corpo - tudo orgânico - dá-se por dentro.
Às vezes na lonjura, penso como no Shakespeare "tanto amor desperdiçado"... e olho para as minhas mãos e penso-as no teu cabelo...penso que queria andar de bicicleta contigo, tomar banho no mar contigo e fazer-te café todos os dias... todos os dias que quisesses.


E corro.


Depois escrevo-te e é um silêncio... o espaço todo sem saber como...onde...todo o mistério, mas também todo o medo de Não... de Assim-Assim...incertezas a invalidar o coração.
Nó.
Coração acelera...respiro muito pouco...e medo.
TENHO MEDO DE TE CANSAR. DE PESAR NO TEU CORAÇÃO.




IV.


Penso-me para ti. E agora há idade.
Há as falências, os cansaços. E eu a pensar que de mão dada em silêncio também está bem.
Cuidar-te. Gostava que soubesses.


O meu silêncio para juntar ao teu.


(...)


Abr/Jul 09



ABRO MÃO DA PRIMAVERA PARA QUE ME CONTINUES A OLHAR.

pablo neruda



Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime