David Lynch
Alquimia do verbo


A mim. A história de uma de minhas loucuras. Há muito tempo eu me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Eu amava as pinturas idiotas, enfeites de portas, cenários, telas de saltimbancos, bandeiras, gravuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas bisavós, contos de fadas, pequenos livros da infância, velhas óperas, refrões tolos, ritmos ingênuos.

Eu sonhava cruzadas, viagens de descobrimentos sem relatos, repúblicas sem história, guerras de religião abafadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: eu acreditava em todos os encantos.

Inventei a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. - Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me lisonjeava de inventar um verbo poético acessível, cedo ou tarde, a todos os sentidos. Eu reservava a tradução.

Foi primeiro um estudo. Escrevia silêncios, noites, anotava o indizível. Fixava vertigens.

Rimbaud, Delírios

message in a bottle



O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

E se o vento varrer as folhas secas sem deixar
nenhuma?
Este Outono ela não guardará folhas dentro dos livros
E ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
E ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo
no Inverno, à chuva, atrás dos vidros.


António Barahona
Noite do Meu Inverno
Lisboa, 2001