Caetano Veloso & Lila Downs
Burn it Blue

Cerimónia de Vassalagem

Quero contar isto:
A aldeia está destruída.
Um vassalo dedicadíssimo um dia faz sobreuso dos seus poderes - usa recursos que não tem ao seu alcance - os gregos chamar-lhe-iam a Hybris, o mais próximo de uma ousadia fadada ao terror.
Esse vassalo percebe tardiamente como ajudou a destruir a aldeia, os bens, as casas, as mulheres, as crianças.
Recolhe-se. Fidelidade e trabalho não reconstroem a aldeia.
Nas cerimónias de vassalagem, ajoelhava-se, recolocava as suas mãos entre as do senhor - imissio in manus - mas não chegava.
Jurava-lhe lealdade e era tarde. Fidelidade e era impossível.
As terras, as pontes, os equipamentos agrícolas...o uso da fonte de água - parado.
Fecha-se. Trabalha em silêncio. Pede perdão, no nojo diário, para a aldeia, para si...cumpre o seu trabalho sem esperar recompensa. Desdobra os dias pensando na aldeia destruída e em como reerguê-la.
Um dia o suserano vem - não cobra o apoio militar, não pede ajuda, não quer
hospedagem e traz oferendas! Despojado, esquecendo hierarquias de Mal e Bem,
vem com iguarias quentes e aceitando unir-se ao vassalo para reconstruir o feudo - entenda-se: lugar cimeiro e intocável.
Todos os dias atravessa a ponte traz bens, alimentos e duas mãos onde o vassalo pode secretamente prestar a sua vassalagem em silêncio e união. Uma vassalagem secreta, de reconstrução. Que lhe permita a vida de novo. A entrada na aldeia.
Como se o escravo estivesse na sua cela, nuns dias sem principio nem fim, e fosse visitado, porque escolhido, pelo seu amo - que lhe traz vida e calor, comida e calor, apaziguamento e calor - como que visitado por algo maior que inverte as leis e as permite lhanas e plenas no coração dos homens -
sem tempo para trás e uma luz finíssima para a frente.
O escravo é visitado pelo senhor, nutrido, cuidado, relembrado do mal que fez e no entanto bem tratado...sem nenhum grilhão - mãos, pés, boca e coração livres - depois de cada visita, de cada cerimónia de reconstrução.
O escravo vai recuperando, curando as maleitas e os achaques desvitaminados desta clausura - o amo parte e o escravo revê o mal que fez pelo bem que recebe. A cara é espancada docemente, acariciada pelo ensinamento da mão enluvada do amo.
O escravo recupera. Agradece. Meu deus, como agradece!
O escravo é uma escrava e a aldeia talvez se possa reconstruir.

Sei que isto já aconteceu. Though I know of it's rarity.


Latifúndio e Mão de Obra 


O mesmo escravo ouviu falar de latifúndios - terra livre e abundante - um pouco mais ao norte, um pouco mais ao centro do seu corpo em défice.
Logo se preparou - a promessa de um latifúndio, que se construísse devagarinho...bem dividido, organizado, como num mapa medievo, o cavalo à direita da casa, com o alforge carregado para a intempérie, a carroça com lenha ao lado do celeiro, o caminho alinhavado por pedras e pequenos arbustos silenciosos...um latifúndio, sem promessa de mundos e fundos - um latifúndio amplo e verdejante, justificação para o locus amenus...com que o escravo sonhara.
Trabalhos forçados nos campos, não tinha conhecimento, por isso lhe parecia isso de uma extrema inexactidão.
Tinha o direito de arrendar e recebia em troca protecção (e tantas tantas outras coisas). Não percebia como podiam ser trabalhos forçados...eram coisas da silvicultura, da agricultura, do transporte por terra ou por rio, obrigações com o artesanato, a manufactura...coisas que o obrigavam a ver o seu amo de novo e continuadamente e por ser prazeroso, esquecer quando o seu dia começara ou acabara, esquecer as dores nas espaldas ou as dificuldades no respirar. Não conhecia a obrigação.

A este escravo permitiram-lhe sonhar.
A este escravo permitiram-lhe usar as duas mãos e o coração e o fígado e as vísceras todas para trabalhar - estava cheio de um amor histórico vindo lá do século V, onde só havia riachos e relva onde queria repousar.
A este escravo foi dada a liberdade de correr no tempo, sempre, cabeça e coração no seu amo, no trilho, amealhando coisinhas que mais tarde podiam figurar no mesmo mapa imaginado lá atrás.
A este escravo foi dado o direito de não ser escravo, por um amor maior, uma vontade maior, umas mãos maiores que o libertaram.

Este escravo tem o latifúndio no peito. Ao pé da boca... um espaço amplo e grandiosíssimo onde todos estes trabalhos são obra da mão do seu amo, que arrenda e protege, que vigia e cuida, que defende... e como Amo, Ama.

Sandra Filipe

                                                                              





Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

Clarice Lispector


David Lynch
Alquimia do verbo


A mim. A história de uma de minhas loucuras. Há muito tempo eu me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Eu amava as pinturas idiotas, enfeites de portas, cenários, telas de saltimbancos, bandeiras, gravuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas bisavós, contos de fadas, pequenos livros da infância, velhas óperas, refrões tolos, ritmos ingênuos.

Eu sonhava cruzadas, viagens de descobrimentos sem relatos, repúblicas sem história, guerras de religião abafadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: eu acreditava em todos os encantos.

Inventei a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. - Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me lisonjeava de inventar um verbo poético acessível, cedo ou tarde, a todos os sentidos. Eu reservava a tradução.

Foi primeiro um estudo. Escrevia silêncios, noites, anotava o indizível. Fixava vertigens.

Rimbaud, Delírios

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