Às vezes as cidades são assim

O que nos induz efectivamente?
Uma hospitalidade sem limites?

Por essa altura, apesar de atormentados
pela névoa, descobríamos missões
na caixa do correio. Talvez por hábito,
procurávamos uma rua cheia
e contudo inacabada: vidas
que por um instante corriam paralelas,
                                                       coisas em que só tínhamos de pensar
                                                       por pouco tempo.



Com isto, ao fim da noite perdíamos
a noção dos factos - era esse o punhal
que Lisboa costumava espetar
nas nossas costas. Às vezes as cidades
são assim, abrem buracos em tudo.
Gosto de pensar que Lisboa
nunca nos faria tal coisa
se achasse que não aguentávamos.

Vítor Nogueira

04.Novembro.1943

Às vezes o mundo inteiro
não chega para nos escondermos:
estranhos que se intrometem
diálogos que terminam sem esperança,
desculpas que não pegam,
nem em bazares de Marrocos.

Vítor Nogueira

Hoje fazias anos. Fazes.
No meu peito fazes uma coisa estranha.
Fazes pouco.
Não fazes falta.
Um dia digo-te isto, muito baixinho ou muito alto,
para que talvez ouças, para que deixe de te ouvir.

Eu era mais ou menos,
era muito jovem.
Precisava de ti.
Como os filhos precisam dos pais, às vezes, até muito tarde.
Para que o coração não doa.

Parabéns por teres ido.
Por escolheres outro sangue.
Por seguires a tua vida.
Por não acabares de medir a minha altura
na escala inventada à pressa na parede,
que te mostraria até onde era capaz de chegar.
Um metro e setenta e dois.
Saiste aos cinquenta e três...
podia ficar grande demais.

E na verdade, vistas bem as coisas,
nem me deixaste para trás.
Parabéns.


Sandra Filipe
Amo-te com ar
Amo-te a amar
Amo-te muito
Amo-te com o peito
Com o pé
Com o peito do pé
Com a mão no peito
Com a boca
Com fé

Amo-te com tempo
Com força
Com vontade
Com força de vontade
Com paixão
Com fome
Com casas
Com sangue
Com calor
Com querer

Amo-te sem pé
Sem fôlego
Sem tempo
Sem morada
Sem ar
Sem medo
Sem frio
Sem pensar
Sem verbos
Sem lei
Sem
Sem palavras

Amo-te como se tem fome
Amo amar-te
e respiro com isso.

Sandra Filipe
(Dornes, Maio 2011)

Gostaria de descrever

gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto


e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas


os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

Zbigniew Herbert
ELOGIO DOS SONHOS

(Dornes, Maio 2011)


Nos sonhos
eu pinto como Vermeer van Delft.

Falo grego fluente
e não só com os vivos.

Dirijo um carro
que me obedece.

Tenho talento,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos.

Vocês se espantariam
com minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.

Ao cair do telhado
desço de manso na relva.

Respiro sem problema
debaixo d'água.

Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.

Faz alguns anos
vi dois sóis.

E anteontem um pinguim.
Com toda a clareza.

WISLAWA SZYMBORSKA

Ontem lá em baixo no canal



Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido do que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)


Frank O'Hara

BROTHERS ON WHEELS




Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.




HELDER MOURA PEREIRA