Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação --
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se --
Porque hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.


Else Lasker-Schüler
Baladas Hebraicas






A noite - enorme 
tudo dorme menos teu nome.

(Paulo Leminsky)


Chaves







Queremos a presença das coisas. É tão simples, isto: queremos as coisas próximas, íntimas, como as peças de roupa pousadas na cadeira ao nosso lado. Próximo e íntimo, desse mesmo modo, o que nos pertence ainda mais de perto: a evidência viva do mundo. E toda inteira, já agora. Queremos aberta a porta do ser - que há-de ter certamente uma porta. Vendo bem, porque não haveria essa porta? Há, em certos dias, em certos lugares do mundo, uma tão certa harmonia entre a temperatura do corpo e a do ar que quase se perde a noção de entre uma coisa e outra ser a pele uma fronteira.
O ar parece então levemente texturado, suave como algodão em rama. Dir-se-ia que o trazemos vestido. É qualquer coisa como isto, o que queremos. Algo de que esse envolvimento fosse a imagem ou - melhor ainda - simplesmente um caso muito concreto. 


Rosa Maria Martelo



-Se ao menos pudéssemos dormir, dormir bem sem ter calor nem frio, dormir com aquele aniquilamento das noites de grande cansaço, dormir sem sonhos.
- Porquê sem sonhos? - perguntou o vizinho
- Porque os sonhos nem sempre são agradáveis e são estranho e inverosímeis, sem nexo, e porque a dormir, nem sequer podemos saborear os melhores a nosso bel-prazer.
É preciso sonhar acordado.



in Sonhos, Contos do Insólito
Guy de Maupassant



Envelhece-se mais devagar ao anoitecer.
A morte enrosca-se, faz uma trégua até que de novo amanheça.
Sou um homem nocturno, a luz do dia aumenta o conhecimento da minha escassa eternidade.

Malcolm Lowry




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