um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris

jorge de sousa braga

Si le feu brûlait ma maison, qu’emporterais-je?
J’aimerais emporter le feu...

Jean Cocteau

O ano declina






Pedem tanto a quem ama: pedem

o amor. Ainda pedem

a solidão e a loucura.

Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.

E eles querem dizer: tu darás a tua existência

ardida, a pura mortalidade.

Às mulheres amadas darei as pedras voantes,

uma a uma, os pára-

-raios abertíssimos da voz.

As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono

onde um copo fala

fusiforme

batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.

Dá-nos tua ardente e sombria transformação.

E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,

lentamente uma sobre a outra.


herberto helder

Eat Me
  Gray Sapphire (Deviant Art) 
 Malevich



(...) perguntou-me se tinha medo do escuro e eu senti uma coisa cá dentro, um consolo, um júbilo, um alívio, a certeza de regressar a casa a seguir a uma viagem sem fim porque quando uma mulher pergunta a um homem se tem medo do escuro é sinal que quer ficar com ele para sempre, é sinal que quer ficar com ele muito tempo.

António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores, Publicações D. Quixote, 1996

roubado aqui

Agora para Todos

Do Natal - Com Dedicatória



Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.

Ary dos Santos

Ousadia


Too Big to Fail


Como pode um investimento tão fiável
garantir este rendimento crescente, numa
diária distribuição de beijos e outras mais-
-valias, ainda por cima livres de impostos?


Embora confiasse na tua competência
para criar valor, confesso que não esperava
tanto quando decidi aplicar nos teus títulos
sensíveis os meus parcos activos emocionais.


O mais estranho, no mundo actual, é ser este
um negócio sem perdedores, aparentemente
imune ao nervosismo das tuas acções
ou às flutuações do meu comércio libidinal.


O meu único receio é que despertemos
a invejo dos deuses, no Olimpo de Bruxelas,
e que Mercado, o monstruoso titã, decida
baixar para lixo o rating da nossa relação,


deixando-nos sem crédito na praça romanesca
e em default o coração. Mas não sejamos
pessimistas. Aliás, ambos sabemos que Cupido
nos ampara com sua mão invisível. E mesmo


que entrássemos ambos em depressão, tenho
a certeza de que o Estado português nos daria
todo o apoio, concordando que um amor como
este é simplesmente demasiado grande para falir.


JOSÉ MIGUEL SILVA

'e não sei o que fazer com esta espertina se não beijar-te'

miguel martins
 

Pedido



Take me home, you silly boy
Put your arms around me
Take me home, you silly boy
All the world's not round without you

I'm so sorry that I broke your heart
Please don't leave my side
Take me home, you silly boy
Cause I'm still in love with you

No repeat



One and one-half wandering Jews
Free to wander wherever they choose
Are travelling together
In the Sangre de Cristo
The Blood of Christ Mountains
Of New Mexico
On the last leg of the journey
They started a long time ago
The arc of a love affair
Rainbows in the high desert air
Mountain passes slipping into stones
Hearts and bones
Hearts and bones
Hearts and bones
Thinking back to the season before
Looking back through the cracks in the door
Two people were married
The act was outrageous
The bride was contagious
She burned like a bride
These events may have had some effect
On the man with the girl by his side
The arc of a love affair
His hands rolling down her hair
Love like lightning shaking till it moans
Hearts and bones
Hearts and bones
Hearts and bones
And whoa whoa whoa
She said:
Why?
Why don't we drive through the night
And we'll wake up down in Mexico
Oh I
I don't know nothin' about nothin'
About Mexico
And tell me why
Why won't you love me
For who I am
Where I am
He said:
'Cause that's not the way the world is baby
This is how I love you, baby
This is how I love you, baby
One and one-half wandering Jews
Return to their natural courses
To resume old acquaintances
Step out occasionally
And speculate who had been damaged the most
Easy time will determine if these consolations
Will be their reward
The arc of a love affair
Waiting to be restored
You take two bodies and you twirl them into one
Their hearts and their bones
And they won't come undone
Hearts and bones
Hearts and bones
Hearts and bones
Hearts and bones

Paul Simon
GHOSTS



Some ghosts are women,
neither abstract nor pale,
their breasts as limp as killed fish.
Not witches, but ghosts
who come, moving their useless arms
like forsaken servants.


Not all ghosts are women,
I have seen others;
fat, white-bellied men,
wearing their genitals like old rags.
Not devils, but ghosts.
This one thumps barefoot, lurching
above my bed.


But that isn’t all.
Some ghosts are children.
Not angels, but ghosts;
curling like pink tea cups
on any pillow, or kicking,
showing their innocent bottoms, wailing
for Lucifer.


Anne Sexton
tão
alta
a
torre

até
seu
tombo
virou
lenda



Paulo Leminski




e, faltando-me a inspiração do Mestre, posso morrer gelado
antes de conseguir sair para a chuva branca.

Frank O'Hara



No próximo dia 19 de Novembro, pelas 22h, lançamento do livro
"Napule", de Vasco Gato, editado pela Tea For One.
No bar Bartleby (Rua da Imprensa Nacional, 116 b - cave do restaurante BS).

If i can't dance, i don't want to be part of your revolution.
Emma Goldman

Às vezes as cidades são assim

O que nos induz efectivamente?
Uma hospitalidade sem limites?

Por essa altura, apesar de atormentados
pela névoa, descobríamos missões
na caixa do correio. Talvez por hábito,
procurávamos uma rua cheia
e contudo inacabada: vidas
que por um instante corriam paralelas,
                                                       coisas em que só tínhamos de pensar
                                                       por pouco tempo.



Com isto, ao fim da noite perdíamos
a noção dos factos - era esse o punhal
que Lisboa costumava espetar
nas nossas costas. Às vezes as cidades
são assim, abrem buracos em tudo.
Gosto de pensar que Lisboa
nunca nos faria tal coisa
se achasse que não aguentávamos.

Vítor Nogueira

04.Novembro.1943

Às vezes o mundo inteiro
não chega para nos escondermos:
estranhos que se intrometem
diálogos que terminam sem esperança,
desculpas que não pegam,
nem em bazares de Marrocos.

Vítor Nogueira

Hoje fazias anos. Fazes.
No meu peito fazes uma coisa estranha.
Fazes pouco.
Não fazes falta.
Um dia digo-te isto, muito baixinho ou muito alto,
para que talvez ouças, para que deixe de te ouvir.

Eu era mais ou menos,
era muito jovem.
Precisava de ti.
Como os filhos precisam dos pais, às vezes, até muito tarde.
Para que o coração não doa.

Parabéns por teres ido.
Por escolheres outro sangue.
Por seguires a tua vida.
Por não acabares de medir a minha altura
na escala inventada à pressa na parede,
que te mostraria até onde era capaz de chegar.
Um metro e setenta e dois.
Saiste aos cinquenta e três...
podia ficar grande demais.

E na verdade, vistas bem as coisas,
nem me deixaste para trás.
Parabéns.


Sandra Filipe
Amo-te com ar
Amo-te a amar
Amo-te muito
Amo-te com o peito
Com o pé
Com o peito do pé
Com a mão no peito
Com a boca
Com fé

Amo-te com tempo
Com força
Com vontade
Com força de vontade
Com paixão
Com fome
Com casas
Com sangue
Com calor
Com querer

Amo-te sem pé
Sem fôlego
Sem tempo
Sem morada
Sem ar
Sem medo
Sem frio
Sem pensar
Sem verbos
Sem lei
Sem
Sem palavras

Amo-te como se tem fome
Amo amar-te
e respiro com isso.

Sandra Filipe
(Dornes, Maio 2011)

Gostaria de descrever

gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto


e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas


os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

Zbigniew Herbert
ELOGIO DOS SONHOS

(Dornes, Maio 2011)


Nos sonhos
eu pinto como Vermeer van Delft.

Falo grego fluente
e não só com os vivos.

Dirijo um carro
que me obedece.

Tenho talento,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos.

Vocês se espantariam
com minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.

Ao cair do telhado
desço de manso na relva.

Respiro sem problema
debaixo d'água.

Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.

Faz alguns anos
vi dois sóis.

E anteontem um pinguim.
Com toda a clareza.

WISLAWA SZYMBORSKA

Ontem lá em baixo no canal



Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido do que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)


Frank O'Hara

BROTHERS ON WHEELS




Viajas um pouco acima
da fixa viagem
da terra, eu sou
o teu amigo, o irmão
que nunca saiu
e regressou.
Mar e mãe se enredavam
por coisas de sangue
e confronto, presos animais
de fumo e noite.
E motores ao corpo
dos heróis, depressa
passam, facas
na pele ardendo.
Eu visto
as tuas camisolas
e a vida que viveste
já a tenho. Quero
que o teu murmúrio
me perturbe, a voz
é um ponteiro
sobre o tempo, os peixes
não deixam de bater
nos vidros.




HELDER MOURA PEREIRA
Não. Não há pão para a fome que o amor fabrica, não há perdão. Descansa, então. Primeiro as pernas para as levar à boca, a erva doce, a lã rugosa e húmida, o seu grão minúsculo. Depois a língua como um junco, os dedos miúdos.
 Aflore-se a música, não vá a tua fonte dormir, o sol para entrar até tarde, para o gosto não ruir, os olhos contra as pálpebras, o sangue inflamado.

Eduardo White


Possuo apenas 35 cêntimos, é tão inconsequente comer!

Frank O'Hara

outro verão

(...)

um pedacinho do ar
azul do verão regressará
quando o vapor gargalhar
na afronta fumegante do monstro

e serei feliz aqui e ali, saciado
de chá e lágrimas. Suponho que nunca alcançarei
a Itália, mas pelo menos tenho a tundra terrível.

Frank O'Hara

Inesperado



If you go away
On this summer's day
Then you might as well
Take the sun away
All the birds that flew
In the summer sky
When our love was new
And our hearts were high
And the day was young
And the nights were long
And the moon stood still
For the night bird's song

If you go away
If you go away
If you go away...

But if you stay
I'll make you a day
Like no day has been
Or will be again
We'll sail on the sun
We'll ride on the rain
And talk to the trees
And worship the wind

(...)

BREVE PASSAGEM PELO FOGO Apresentação Sáb, 17h30 - Bar A Barraca

O 'lugar onde' é sempre dentro de nós.

Dá-me um poema


Dá-me um poema
Para despedaçar o coração dos homens
Puro como lâminas
Como o som de um relógio
Sobre o pântano.
Diz-me o significado, espectro,
E diz-me a hora
Em que me perco,
E em que quarto serei encontrado outra vez.
Dá-me o poder da minha mão
E que as minhas palavras sejam sãs
E fortes como o voo.
Conduz o meu aparo,
Ajuda-me a escrever,
Mostra-me as portas
Onde estão as ordens;
E a prisão
Que a minha alma contempla,
Onde a minha coragem
Ruge entre as grades.

Malcolm Lowry
(in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar,
Assírio & Alvim
trad. José Agostinho Baptista)


tivesse ainda tempo e entregava-te o coração
(josé tolentino de mendonça)
POEMA

Tu escolhes o lugar da ferida
em que dizemos o nosso silêncio.
Tu fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik
Amo-te, ó lei mais suave,
na qual amadurecemos, quando com ela em luta estávamos;
ó grande saudade que não dominámos,
ó floresta da qual nunca saída encontrámos,
ó canção que em cada silêncio cantámos,
ó rede de obscuridade,
em que nossos sentimentos presos abrigávamos.


Tão infinitamente grande te começaste,
naquele dia em que nos começaste,
e tanto amadurecemos nos sóis de tuas horas,
tanto nos alargámos e nos plantámos profundamente,
que em Homens, Anjos e Nossas Senhoras
agora te podes cumprir descansadamente.


Deixa a tua mão na encosta dos céus pousar
e tolera em silêncio o que te estamos na sombra a preparar.


Rainer Maria Rilke

FAVOLA DA MEDUSA - AMANHÃ no BAR A BARRACA



- Ana Dias (harpa)

- Bernardo Nascimento (baixo eléctrico)

- Filipe Homem Fonseca (guitarra eléctrica)

- Miguel Martins (baixo eléctrico, piano, melódica, etc.)



A entrada é livre. Apareçam!


Ensinaste-me a não esperar nada.
                          Aprendi.
(e quando o nada se transforma em tudo...)
- Que dor tens agora para me ensinar?

Ana Dias
in Piolho 006



'All men fear death. It's a natural fear that consumes us all. We fear death because we feel that we haven't loved well enough or loved at all, which ultimately are one and the same. However, when you make love with a truly great woman, one that deserves the utmost respect in this world and one that makes you feel truly powerful, that fear of death completely disappears. Because when you are sharing your body and heart with a great woman the world fades away. You two are the only ones in the entire universe. You conquer what most lesser men have never conquered before, you have conquered a great woman's heart, the most vulnerable thing she can offer to another. Death no longer lingers in the mind. Fear no longer clouds your heart. Only passion for living, and for loving, become your sole reality. This is no easy task for it takes insurmountable courage. But remember this, for that moment when you are making love with a woman of true greatness you will feel immortal.'


Ernest Hemingway

A de ARQUIVO DE CABECEIRA



Pequenos crimes entre amigos

Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.


Inês Dias



[A de amorosamente abrigado na Piolho 006, aqui e no coração. Obrigada.] 

Piolho 006 - Revista de Poesia



Virás sempre
fazer com que acredite
que o tempo
nesta procura
não acaba.

Gesto exigente
o teu amor
alado.

E nenhum vento que nos perturbe.

Marta Chaves


Put your ear down close to your soul and listen hard *




She is so naked and singular.

She is the sum of yourself and your dream.

Climb her like a monument, step after step.

She is solid.


Anne Sexton *

Quase Outono


É tão verdadeiro esse sítio, esse ofício dos arbustos e dos rios.
És o destino dos meus lábios, da minha boca toda, gretada, seca, só não sei porque demoras, por que razão cumprirás isso com tanta minúcia.

Perturbas-me.
Parte por parte. A vagarosa, que tu acendes, e a velocíssima que eu agravo.

Quero descansar-me. Numa palavra: respirar.

Eduardo White

As palavras
revelam-se insuficientes, a linguagem
fica aquém dos sentimentos
da sua vibração, da sua luz
que quase cega.

...Nenhum
artelho de metáfora poderá
descrever o que sentimos, só aproximações.
A minha língua é pobre - salvo
quando se encontra com a tua...

Egito Gonçalves


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nús, em sangue, embalando a própria dor
em frente às madrugadas do amor.

Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e que é passagem.
No interior das coisas canto nua,

Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei,
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andersen
O Atalho de Rilke - 5 de Abril, 15h

O sol brilha
As árvores rumorejam
O vento sopra
Os arbustos cheiram bem

O mar refulge
As gaivotas gritam
O cão arfa
A pedra aquece

Frases Simples:
Sujeito
Predicado
Sem Complementos

Hans Raimund

rented rooms



There's the same hotel, and we can go there now
We can go there now if you want to
Through the doors of that rented room
Yeah, we stumbled through
It was only hours
It seemed such a short while
We had no time to cry
Or sit and wonder why
We had so many things started to say
We had to get through
We tried the cinema
Within half an hour
We had to go find someplace else
Some more... you know
We tried a drinking bar
It gets so very hard
And when the cab ride ahead seems too long
We go fuck in the bathroom
We can't afford the time to sit and cry
Or to wonder why
We've got so many things started to say
We have to get through
Through the doors of that rented room
Yeah, we stumbled through
We had so many things started to say
We had to get through
We can't afford the time to sit and cry
Or to wonder why
We got so many things started to say
We have to get through
We haven't got the time for telling lies
Or to even try
There's only days in between
There's just tomorrow
Through the doors of that rented room
Yeah, we stumbled through
It was only hours - it seemed such a short while
In those pillows all the feathers that hold all our dreams
Whispered at the scene
Now they just seem to float on a breeze
I could have wrapped that pillow around my head
Face down on the bed
I could have drowned in those so-called dreams
We can't afford the time to sit and cry
Or to wonder why
There's only days in between
There's just tomorrow




(aos amigos, pela noite de ontem e pela música e por, e por... obrigada)
Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza.

Herberto Helder

that night i knew you were












...i wanna tell you how much i love you
i'm drownin' in the sea of love...

COME WITH ME TO THE SEA



HOPE IS THE THING WITH FEATHERS

emily dickinson

Some Summers They Drop like Flys




(Grata ao Frederico Pedreira)


o vermelhão - é sempre bom para dar nas faces
e na boca, onde o lábio superior, em todo o caso,
deverá ser mais corado do que o de baixo.
Depois abri os olhos a pincel e as sobrancelhas.
HÁ QUEM RIA PARA NÃO CHORAR, GENTE QUE PRATICA
A AUTOMEDICAÇÃO, PROCEDIMENTOS DE ROTINA
PARA ESQUECER AS INFRACÇÕES DA JUVENTUDE.

Envelhecer, envelhecer. Não se importam
que paremos, que façamos outra coisa?

Vítor Nogueira


SEI QUE ME REGE UMA FLOR INSENSATA

vasco gato



O little mother,

I am in my own mind.

I am locked in the wrong house.


ANNE SEXTON






AZUL


FIREWORKS



But whenever I see you, I burst apart
And scatter the sky with my blazing heart.
It spits and sparkles in the stars and balls,
Buds into roses – and flares, and falls.


Scarlet buttons, and pale green disks,
Silver spirals and asterisks,
Shoot and tremble in a mist
Peppered with mauve and amethyst.


(...)

Amy Lowell


All the love
all the love inside me
is on its way
is on its way to find you
don't try to hide
from my love for you

all the love
all the love inside me
is on its way
is on its way to find you
like the tide
I'll always return to you

and all the love
all the love inside you
it's for me
in the dunes, in the tall grass
you sit and smiled
you're the only one
that could ever tease me

all the love
all the love inside you
feels my stare
getting closer to you
on the shore
sing your love
to the stars
that are guiding me back to you

all the love
all the love inside me
feels your breath
upon my back and
hears your song
that calls me home
if I could tell you
of all the things I've seen

all the love
all the love inside them
got locked away
for its own protection
for so long
became just a memory

and all the love
all the love inside them
twisted into hate
they have no choice to
pass on the fear
pass on the pain
they pour it down into the child
into the man
into the world
that learned to love
the gun that's in his hand

all the love
all the love inside me
fell like it drowned
in a dirty ocean
looked at the stars,
looked at my hands
and my fingertips
trembled at the thought of touching you



Marbholidays

( Cachimbo, Garrafa de Bass e Dado, Picasso, 1914)


O meu cachimbo

Ó meu cachimbo! Amo-te imenso!
Tu, meu turíbulo sagrado
Com que, Sr. Abade, incenso
A Abadia do meu passado.

Fumo? E acorre-me à lembrança
Todo esse tempo que lá vai,
Quando fumava, ainda criança,
Às escondidas do meu Pai.

Vejo passar a minha vida,
Como um grande cosmorama:
Homem feito, pálida Ermida,
Infante,pela mão da ama.

Por alta noite, às horas mortas,
Quando não se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para falar contigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d’Anto, aonde eu moro!
Ali, metido no buraco,
Fumo e, a fumar, às vezes… choro.

Chorando (penso e não digo)
Os olhos fito neste chão,
Que tu és leal, és meu amigo…
Os meus amigos onde estão?

Não sei. Trá-los-á o «nevoeiro»
Os três, os íntimos, Aqueles,
Estão na Morte, no estrangeiro…
Dos mais não sei, perdi-me deles.

Morreram uns. Por isso peço
A Deus, se ele está de maré:
E, às noites, quando eu adormeço,
Fantasmas, vêm, pé ante pé…

Tristes, nostálgicos da cova,
Entram. Sorrio-lhes e falo.
Deixam-me estar na minha alcova,
Até se ouvir cantar o galo.

Outros, por esses cinco Oceanos,
Por esse Mundo erram, talvez:
Não me escreveis, há tantos anos!
Que será feito de Vocês?

Hoje, delícias do abandono!
Vivo na Paz, vivo no limbo:
Os meus amigos são o Outono,
O Mar e tu, ó meus Cachimbo!

Ah! quando for do meu enterro,
Quando partir gelado, enfim,
Nalgum caixão de mogno e ferro,
Quero que vás ao pé de mim.

Santa mulher que me tratares,
Quando em teus braços desfaleça,
Caso os meus olhos não cerrares,
Embora! Que isto não te esqueças.

Coloca sobre a travesseira,
O meu cachimbo singular
E enche-o, solicita Enfermeira,
Com Gold-Fly, para eu fumar…

Como passar a noite, Amigo!
No Hotel da Cova sem conforto?
Assim, levando-te comigo,
Esquecer-me-ei de que estou morto…

António Nobre




" Tinha suspirado,
tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,
onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo condizia a um êxtase,
e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

Eça de Queirós, O Primo Basílio





Caetano Veloso & Lila Downs
Burn it Blue

Cerimónia de Vassalagem

Quero contar isto:
A aldeia está destruída.
Um vassalo dedicadíssimo um dia faz sobreuso dos seus poderes - usa recursos que não tem ao seu alcance - os gregos chamar-lhe-iam a Hybris, o mais próximo de uma ousadia fadada ao terror.
Esse vassalo percebe tardiamente como ajudou a destruir a aldeia, os bens, as casas, as mulheres, as crianças.
Recolhe-se. Fidelidade e trabalho não reconstroem a aldeia.
Nas cerimónias de vassalagem, ajoelhava-se, recolocava as suas mãos entre as do senhor - imissio in manus - mas não chegava.
Jurava-lhe lealdade e era tarde. Fidelidade e era impossível.
As terras, as pontes, os equipamentos agrícolas...o uso da fonte de água - parado.
Fecha-se. Trabalha em silêncio. Pede perdão, no nojo diário, para a aldeia, para si...cumpre o seu trabalho sem esperar recompensa. Desdobra os dias pensando na aldeia destruída e em como reerguê-la.
Um dia o suserano vem - não cobra o apoio militar, não pede ajuda, não quer
hospedagem e traz oferendas! Despojado, esquecendo hierarquias de Mal e Bem,
vem com iguarias quentes e aceitando unir-se ao vassalo para reconstruir o feudo - entenda-se: lugar cimeiro e intocável.
Todos os dias atravessa a ponte traz bens, alimentos e duas mãos onde o vassalo pode secretamente prestar a sua vassalagem em silêncio e união. Uma vassalagem secreta, de reconstrução. Que lhe permita a vida de novo. A entrada na aldeia.
Como se o escravo estivesse na sua cela, nuns dias sem principio nem fim, e fosse visitado, porque escolhido, pelo seu amo - que lhe traz vida e calor, comida e calor, apaziguamento e calor - como que visitado por algo maior que inverte as leis e as permite lhanas e plenas no coração dos homens -
sem tempo para trás e uma luz finíssima para a frente.
O escravo é visitado pelo senhor, nutrido, cuidado, relembrado do mal que fez e no entanto bem tratado...sem nenhum grilhão - mãos, pés, boca e coração livres - depois de cada visita, de cada cerimónia de reconstrução.
O escravo vai recuperando, curando as maleitas e os achaques desvitaminados desta clausura - o amo parte e o escravo revê o mal que fez pelo bem que recebe. A cara é espancada docemente, acariciada pelo ensinamento da mão enluvada do amo.
O escravo recupera. Agradece. Meu deus, como agradece!
O escravo é uma escrava e a aldeia talvez se possa reconstruir.

Sei que isto já aconteceu. Though I know of it's rarity.


Latifúndio e Mão de Obra 


O mesmo escravo ouviu falar de latifúndios - terra livre e abundante - um pouco mais ao norte, um pouco mais ao centro do seu corpo em défice.
Logo se preparou - a promessa de um latifúndio, que se construísse devagarinho...bem dividido, organizado, como num mapa medievo, o cavalo à direita da casa, com o alforge carregado para a intempérie, a carroça com lenha ao lado do celeiro, o caminho alinhavado por pedras e pequenos arbustos silenciosos...um latifúndio, sem promessa de mundos e fundos - um latifúndio amplo e verdejante, justificação para o locus amenus...com que o escravo sonhara.
Trabalhos forçados nos campos, não tinha conhecimento, por isso lhe parecia isso de uma extrema inexactidão.
Tinha o direito de arrendar e recebia em troca protecção (e tantas tantas outras coisas). Não percebia como podiam ser trabalhos forçados...eram coisas da silvicultura, da agricultura, do transporte por terra ou por rio, obrigações com o artesanato, a manufactura...coisas que o obrigavam a ver o seu amo de novo e continuadamente e por ser prazeroso, esquecer quando o seu dia começara ou acabara, esquecer as dores nas espaldas ou as dificuldades no respirar. Não conhecia a obrigação.

A este escravo permitiram-lhe sonhar.
A este escravo permitiram-lhe usar as duas mãos e o coração e o fígado e as vísceras todas para trabalhar - estava cheio de um amor histórico vindo lá do século V, onde só havia riachos e relva onde queria repousar.
A este escravo foi dada a liberdade de correr no tempo, sempre, cabeça e coração no seu amo, no trilho, amealhando coisinhas que mais tarde podiam figurar no mesmo mapa imaginado lá atrás.
A este escravo foi dado o direito de não ser escravo, por um amor maior, uma vontade maior, umas mãos maiores que o libertaram.

Este escravo tem o latifúndio no peito. Ao pé da boca... um espaço amplo e grandiosíssimo onde todos estes trabalhos são obra da mão do seu amo, que arrenda e protege, que vigia e cuida, que defende... e como Amo, Ama.

Sandra Filipe

                                                                              





Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

Clarice Lispector


David Lynch
Alquimia do verbo


A mim. A história de uma de minhas loucuras. Há muito tempo eu me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Eu amava as pinturas idiotas, enfeites de portas, cenários, telas de saltimbancos, bandeiras, gravuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas bisavós, contos de fadas, pequenos livros da infância, velhas óperas, refrões tolos, ritmos ingênuos.

Eu sonhava cruzadas, viagens de descobrimentos sem relatos, repúblicas sem história, guerras de religião abafadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: eu acreditava em todos os encantos.

Inventei a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. - Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me lisonjeava de inventar um verbo poético acessível, cedo ou tarde, a todos os sentidos. Eu reservava a tradução.

Foi primeiro um estudo. Escrevia silêncios, noites, anotava o indizível. Fixava vertigens.

Rimbaud, Delírios

message in a bottle



O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

E se o vento varrer as folhas secas sem deixar
nenhuma?
Este Outono ela não guardará folhas dentro dos livros
E ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
E ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo
no Inverno, à chuva, atrás dos vidros.


António Barahona
Noite do Meu Inverno
Lisboa, 2001