Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela 
 atravessar vozes leves e ardentes e crimes 
 sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para 
 a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio 
 de febre para o lado de uma canção
terrível e fria.


Herberto Helder,
Ofício Cantante,
p.247, Assírio&Alvim


Litania


O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;


o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece


navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,


são a grande razão, a única razão.


Eugénio de Andrade



Roubado por mero acaso aqui

AQUI COMEÇA O P... DE POESIA e felizmente não acaba mais

Poesia Incompleta feat. Mário Guerra na Sic 01-02-2011