Páginas de doutrina


É certamente admirável o homem que se opõe a todas as espécies de opressão, porque sente que só assim se conseguirá realizar a sua vida, só assim ela estará de acordo com o espírito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a própria morte o pensamento de que os espíritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a razão e a justiça, com o bem; a existência passou a ser para ele o meio que um deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde até aí apenas a treva se cerrara; é um esforço de indivíduo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmoreçam obstáculos ou o intimide a ameaça; afinal o poderíamos ver como a alma que busca, após uma luta de que a não interessam nem dificuldades nem extensão.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

(à cause de...)

Acontece, porém, que, nas sociedades que, há séculos (paulatinamente, manhosamente, ardilosamente), se têm vindo a montar (e chamemos-lhes, apenas Sociedades Materialistas, para não derrapar por uma ladeira de outros epítetos mais comezinhos), é útil aos efectivos e putativos detentores dos poderes seculares que os homens sejam exactamente assim - condicionados, acabrunhados, covardes, julgando agir em nome e em prol próprios (no total desprezo pelos sublimes votos da pobreza, da castidade e da obediência, esses sim, libertadores, mas tidos por tirânicos), julgando agir segundo o primado da Razão (quando, tão só, a confundem com a dita "racionalidade"), e funcionando, enfim, e isso sim, em prol da sedimentação desses poderes que lhes escapam, nas suas intenções e na sua dimensão. O homem que constrói fábricas ou foguetões é domável; o homem que sonha e imagina, não. Só que o segundo põe a nu, precisamente, a contingência (em sentido preciso) e a iniquidade destas sociedades, cujo fim é - ao fim e ao cabo - a saciedade dos mais vis e sórdidos apetites dos ditos detentores dos poderes seculares. Porque, não nos enganemos, não há como nem porquê dizê-lo de outro modo - vivemos numa enorme cleptocracia; por ladrões, (in?)vulgares ladrões, somos governados, na totalidade das esferas de governo do mundo terreno.

(...)

Miguel Martins

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