Cicatrizes florescidas



A água quente lembra-me todas as manhãs
que não tenho mais nada vivo ao pé de mim.

Yorgos Seferis

Emagreceu em poucos dias,
só de ficar quieto, o olhar mera
passagem de sombras,
demoradíssimo – todo o alcance dessa
ausência louca, e aquela expressão
de nunca mais.
Um fio de cabelo atado no pulso,
e as mãos que traz como uma ferida
à altura da boca. Poisa-a nessa artéria
escura, os lábios abrindo um nada
como se noutros esquecessem
uma flor ensanguentada: incêndio
tão delicado consumindo o ar que
nos falta agora a todos.

Bafeja e deixa senhas nas janelas da casa,
tensas sílabas, pequenas lesões sobrepondo-se
à distância. A luz deitada lá fora
como uma nota arrastada e sem fim,
dilatando a tarde, essa impressão que
lhe seca a garganta. Esta terra
estranha iluminada por um sol negro,
não aquece nem seca a chuva
que nos ensopa até aos ossos. Fica
a vibração dos contornos, moradas
precárias. As cicatrizes florescidas
no paredão e essa talha onde as vespas
bebem a água enquanto esta
lhes bebe o reflexo. Algumas afogam-se.
Em cima, os pássaros nos fios como notas
numa partitura. Áspera melodia
de uma hora que não tem como partilhar.
Dois dedos lambidos decifram a
inclinação do vento, os ouvidos sugando
o ruído, gorjeios secos, sem timbre, baixa
a voz, devolve-lhes um eco submisso
e recorda dois versos de Larkin, perfeitos:
Let me become an instrument sharply stringed
For all things to strike music as they please.

Toma a respiração desta paisagem
anoitecida e escreve os últimos capítulos
da sua lenda exausta. Desenha-os,
enredados caminhos onde observa
o escuro rondando o escuro, e a lua ali
perdida e podre como um destroço náutico.
Deitado esperará a manhã e o som
dela escovando os cabelos.

Diogo Vaz Pinto

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