Homem, nuvem, granito, onda, serpente,
A rocha, o ar, o abutre, a folha d’hera,
O mundo, os mundos, tudo o que é vivente,
Do lodo à águia, do metal à fera,
Da fera ao anjo, do covil à cruz,
Move-se tudo, existe e reverbera,
Sonhando, amando, palpitando em luz!

Guerra Junqueiro (1850-1923)

O ar parece então levemente texturado suave como algodão em rama. Dir-se-ia que o trazemos vestido. É qualquer coisa como isto, o que queremos. Algo de que esse envolvimento fosse a imagem ou - melhor ainda - simplesmente um caso muito concreto.

Rosa Maria Martelo



NÃO SEI COMO DIZER


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir,
quando sucede a noite esplêndida e casta.


Não sei o que quer dizer, quando longamente
teus pulsos se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.


Quando, iniciado o campo,
o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.


Quando as folhas de melancolia arrefecem
com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente
inventada em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.


Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.


Durante a primavera inteira aprendo os trevos,
a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me falta um girassol,
uma pedra, uma ave, qualquer coisa extraordinária.


Porque não sei como dizer-te sem milagres que
dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.


Herberto Helder

 Hay un largo discurso en el silencio
No dice nada y dice cosas
que hacen pensar el aire
Ningún silencio llora ni no ríe

Las manos del poeta no son manos
Son electricidade trenzas de sangre
Ellas solas ondean y vibran
como letras monstruosas

Carlos Edmundo de Ory
Até de olhos fechados se pressente o brilho das coisas quietas, as idas e vindas, os êmbolos, a inquieta vibração de estarem vivas.

Rosa Maria Martelo
in A Porta de Duchamp, Averno 


( sugestão de quem sabe, aqui )
Bem vês: é preciso conhecer os nomes das ruas,
das cidades, das pessoas, dos países, e tudo esquecer
e relembrar de novo se queremos ser, amar
perder, reencontrar e difícil
mas aceitavelmente morrer.

Ternura é o que peço. Mas permanente, atenta,
pantufas, tépida.
Sorrisos e reverências. Histórias, cantos, murmúrios,
em que se incluam as palavras "amor" "sempre"
em que se fale de recomplicadas paixões,
de corpos frenéticos, de rosas, de primaveras. E
explico: A loucura? A fantasia?

Tudo é agora uma questão de mais ou menos
brutalidade, de maior ou menor capacidade de
matar. Impunemente - é preferível.
As acções baixam - não há dúvida.

Manuel de Castro 



EM ALGUMA CIDADE DO PENSAMENTO EU ESTAREI A AMAR-TE

Joan  Margarit