DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida
passar silenciosamente
como a ave no ar claro.


Vê-a que desce. Prende-a.
Nas tuas mãos em concha
fica um instante.


Deixa-a fugir. Outras há.


RUY CINATTI





Uma a uma, as coisas do mundo, as noites desarrumadas,
 as mãos que as arrumam
entre chama e sono

.

Feridas que abrem.
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente.

.

Quando não há palavra que se diga e apenas uma imagem
mostre em cima
os trabalhos e os dias submarinos.

.


Herberto Helder , Última Ciência


A UM POETA

Trata bem o bébé da casa, mil
cuidados deves ter com essa válvula,

o louco mecanismo que respira
perigoso na cama do teu cérebro:

a síndroma da noite e da raposa
- o teu bébé, a imaginação.

José António Almeida





Esta imaginação de sal e duna,
inquieta e movediça como a areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia…

Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira,
- mas branco!, e todo inteiro
para ti…

Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória…
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória…

Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o mar,
a sombra singular
do barco que te dei.

David Mourão-Ferreira



PEQUENO POEMA DIDÁCTICO


O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.


Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas!


Mario Quintana



HUMANISMOSIS

Casi nadie es bueno en estos días
Yo sí que soy heno humano
Pongo en todos mi confianza
y de pronto todos son lindos
Es que hoy la bondad hace reír
como una cosa anticuada
No tengo la culpa de ser andrajo
de puro arcaico articulado
Pero nada me llama necio
Porque todos saben que me enllanto
y nunca lloro y río al unísono

Carlos Edmundo de Ory


AMO O REPOUSO NO CORAÇÃO DO LUME

Eugénio de Andrade